Crônica: O MÉDICO QUE VIROU PREFEITO
Diziam na cidade que, quando um médico é eleito prefeito, o posto de saúde até suspira aliviado. “Agora vai!” Murmurava o pronto‑atendimento cansado de esperar reformas que nunca vinham.As fichas amareladas se empilhavam como quem conta o tempo pelas dores não tratadas.
No dia da posse, o povo olhava para o novo gestor com a esperança típica de quem vê no jaleco branco não um tecido, mas uma promessa. Afinal, quem dedicou a vida a cuidar de um corpo doente saberia também tratar de uma cidade que mancava.
Mas o tempo correu, e a saúde continuou andando de muletas.
O médico‑prefeito pendurou o estetoscópio no fundo de uma gaveta, e com ele, talvez, a sensibilidade de ouvir o pulso do povo. A prefeitura virou um consultório sem pacientes; o gabinete, um lugar onde o silêncio das necessidades ecoava sem que ninguém tomasse nota.
E assim, enquanto o prefeito se ocupava de tudo, menos daquilo que um dia jurou proteger, os moradores foram percebendo que há doenças que não se curam com remédios, mas com responsabilidade.
E que o maior abandono não é a falta de médico, mas sim a falta de humanidade.
Esta é a realidade da nossa Cidade!
Advogado
